Tuesday, November 23, 2010

Transparência.

FÁBRICA DE LETRAS E PALAVRAS

DESAFIO DE NOVEMBRO


TRANSPARÊNCIA

Katherine olhou-se de novo ao espelho.

Gostava!

O pai ia-se passar!

A mãe, de certezinha, ia cair para o lado!

As irmãs mais velhas escandalizar-se-iam.

As mais novas sentiriam um misto de escândalo, incredulidade e desejo de ter a mesma audácia.

O único com sangue-frio nesta situação seria James, o varão da família.

Ele sim, no meio do silêncio mortificante que rodeava a sala, avançaria calmamente na sua direcção, pararia frente a ela, eles olhar-se-iam de frente, nos olhos, um olhar de desafio da parte de ambos – “Desafias os meus pilares?”, diria o olhar dele, “Sim, desafio-os!”, diria o dela – e uma sonora bofetada seria sentida na pele rosada da sua face e ecoaria por todo o imponente salão de festas da casa.

Seria exactamente assim.

Bastava-lhe fechar os olhos para imaginar toda a sequência de acontecimentos, como se em câmara lenta.

E aí sim, o seu acto de rebeldia estaria consumado!

De acordo com toda a gente, o seu destino seria casar-se com um herdeiro rico - por acaso já sabiamente escolhido pelo pais e pelo irmão – e, depois disso, parir uns quantos pimpolhos bonitos e educados, ter uma casa maravilhosa, dar festas memoráveis, ser uma estrela nas festas de caridade da cidade, depois aturar as bebedeiras do marido, as suas amantes e as viagens com as amantes e, que sabe, um dia mais tarde, até as suas merecidas palmadas de macho frustrado.

E mais nada.

Era assim a vida em 1953.

Mas Katherine não queria esse destino.

Sim, já se tinha sentido injustiçada por não poder escolher, já se tinha sentido culpada por ter tanto quando outras não tinham nada, já se tinha sentido desprezada e humilhada quando Henry, o seu noivo, e por quem se tinha acabado por apaixonar e aceitado o seu inevitável destino, a traíra com a sua melhor amiga, e depois a sua prima, e depois a sua irmã mais nova.

Na festa de noivado de ambos.

Mas tudo isso passara já!

Céus, e fora uma óptima desculpa!

Por isso, decidira.

Tudo isto que a rodeava era vazio para ela.

Não lhe dizia nada.

Nada!

O seu destino era outro, e ninguém mais o deveria escolher, senão ela!

Deixou a porta do escritório aberta, para não esconder nada de ninguém. Henry e Sarah que resolvessem o problema deles depois.

Subiu as escadas e tirou o vestido de noivado escolhido pela mãe e pela irmã mais velha, mas que ela detestara.

Vestiu o vestido preto.

Um vestido escandaloso, parecia, com uma transparência atrevida que lhe mostrava os ombros e o colo. O corpete justo ao seu corpo, acentuando a forma da cintura. Com uma racha levemente divulgadora no lado esquerdo da saia.

Um vestido de diva, não um vestido de virgem.

Ao olhar-se no espelho, imaginou a cara do irmão. E riu-se.

Imaginou se ele teria a mesma coragem, uma vez que ambos partilhavam o mesmo sonho.

Largar as obrigações.

Seguir o trilho da vida.

Pilotar um avião.

Correr o mundo.

Calças sujas de lama e aventuras na bagagem.

Respirar.

Katherine saiu do quarto calmamente.

A trapalhada de Henry já dera frutos, Sarah nunca fora rapariga de ficar calada, e o barulho na sala era caótico.

Por pouco tempo, porém.

Katherine dirigiu-se ao cima das escadas e sentiu as vozes silenciarem-se e os olhares cravados na transparência do seu vestido. Na transparência do seu acto.

Desceu-as calmamente.

Já não tinha medo de nada.

É algo que acontece nos sentidos das pessoas quando as decisões são tomadas e os seus verdadeiros destinos aceites.

Como calculara, James dirigira-se a ela.

Olharam-se bem fundo nos olhos.

Mas, contrariamente à bofetada que esperara, Katherine recebeu um sorriso cúmplice.

James ia com ela.


Para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/

Imagem: Glamorous_by_MelissaKristine

1 labaredas:

Johnny said...

"Já não tinha medo de nada.

É algo que acontece nos sentidos das pessoas quando as decisões são tomadas e os seus verdadeiros destinos aceites."

Há que aproveitar estes momentos libertadores!