Há homens que são poças de lama.
O que mostram estende-se em largura, é enorme, denso, brilha sedutoramente ao sol, promete muito.
Mas, na realidade, a sua profundidade resume-se a pouco.
Nada mais do que uma falsa imagem que aparentava grandes coisas.
Outros homens são abismos.
Uma abertura geralmente não muito evidente, um pouco de escuridão e, afinal, muito mais do que isso – uma profundidade na qual não se vê o fim.
O ideal seria um homem-poço.
Uma abertura razoável, não muito extensa, e uma profundidade aceitável, dentro dos limites do suportável para a própria pessoa e para quem a rodeia.
Vincent, obviamente, era um abismo.
Soube-o desde o primeiro momento, apesar de ele se disfarçar de poça de lama.
Todo ele era energia, vida, vivacidade, cor, harmonia.
Um sorriso que abraçava o mundo, um brilho que iluminava em redor.
Mas, por detrás dos seus olhos escuros, escondia um abismo negro que tirava brutalmente o fôlego e o equilíbrio se se olhasse durante demasiado tempo.
Talvez não se conseguisse ver à primeira.
Talvez nem toda a gente o conseguisse perceber, de facto.
É preciso saber olhar, e olhar do plano certo.
De outra forma, não se o consegue entrever.
Para mim não foi difícil.
Eu também não tenho uma personalidade fácil, percebem?
É difícil tê-la quando se é o que sou. Quando se está onde estou.
Não sou um espírito, calma!
Mas também não estou propriamente viva.
Não sei bem o que sou, afinal.
O meu corpo físico, aquilo que se mexe e que se vê, está deitado numa maca de hospital ligado a uma máquina que o faz funcionar.
Mas eu, propriamente, não estou lá. Só às vezes.
Vou visitar-me a mim própria, não soa esquisito?
Bem, isto foi devido a uma daquelas parvoíces por que todos passamos.
“Confias em mim?”
“Claro!”
“Para sempre?”
“Para sempre.”
Mas afinal não é para sempre, e é complicado apercebermo-nos disso quando estamos penduradas nas ameias de um castelo.
Quer dizer, no meu caso tornou-se complicado porque estava lá pendurada e cai para o lado errado.
Logo, o meu corpo físico, mortal, o que lhe queiram chamar, está feito num farrapo e ligado a uma máquinazita que lhe faz bater o coração, os pulmões encherem-se e esvaziarem-se de oxigénio e outros órgãos vitais, basicamente, funcionarem.
No entanto, decidi-ma a ficar a vaguear por aqui.
Por entre as muralhas.
Tem uma bela vista, o castelo.
É consideravelmente sossegado.
E, à noite, inequivocamente pacífico, silencioso e sepulcral.
O sítio ideal para eu deambular!
Foi aqui que descobri Vincent.
Da muralha norte, mais abrigada, e também menos povoada, tenho vista para o parque antigo, agora abandonado e descuidado, e também para as casas menos cobiçadas das ruelas medievais.
Toda a gente quer ficar à vista.
E estas são as que sobram.
Bem, lá estava Vincent.
Uma pequena janela. Um quarto simples.
E dois olhos com um abismo escondido lá dentro.
Não foi difícil aproximar-me, sabem.
Ele já estava à minha procura.
De facto, ele tinha-me descoberto muito antes de eu o descobrir a ele.
Deve ter sido por causa do vestido vermelho.
Ocorreu-me que talvez fosse uma cor demasiado vistosa, por entre a penumbra onde ando e as pedras das muralhas.
Sim, o vermelho destaca-se.
Mas ninguém me devia descobrir.
Eu não existo no mundo real das pessoas, no seu mundo palpável, sóbrio, verdadeiro.
Creio que foi por Vincent vaguear no mundo dos sonhos também, e dos semi-sonhos, daqueles momentos em que não estamos bem acordados ainda, mas também já não estamos a dormir e em que somos parte da névoa.
O despertar acaba com essa sensação.
Era nesses momentos, principalmente, que eu o observava.
Imaginava que ele estava a dormir profundamente, quando ele apenas me vigiava, afinal.
Enquanto ele tecia a sua armadilha para me apanhar.
Não percebi a sua estratégia, mas entrei no jogo.
Afinal, divertia-me a mim também.
Creio que, no início, também ele gostou do jogo.
Eu era o mistério.
Algo que ele não compreendia.
Algo a alcançar.
Tivesse ele sido um pouco mais humano, talvez tivesse tido coragem para comunicar comigo.
Tivesse ele sido um pouco mais humano, não me teria querido nenhum mal.
Mas algo do abismo não o deixava ser humano.
Percebi isso num pôr-do-sol laranja-fogo carregado de nuvens cor-de-chumbo prestes a explodir. Momentos antes de a tempestade desabar pesada e ímpia por entre as pedras ocres das muralhas e a minha fita vermelha que caira há uns passos atrás.
Percebi isso quando me senti encurralada e asfixiada na espiral do nevoeiro em que vivia e não fui capaz de fugir, porque este era arrastado para o abismo sedento de Vincent.
Percebi isso tarde demais.
Finalmente, foi vitorioso.
Conseguiu alcançar o meu coração.
Tivesse ele sido um pouco mais humano, poderia tê-lo conseguido resgatar, talvez, nem eu sei isso.
Mas quando o despedaçou, saiu desiludido, afinal de contas…
Estava vazio…

3 labaredas:
Muito, mesmo muito, bom.
O que aqui anuncias, pode ser verdade, assim como também se pode aplicar à mulher.
É lógico!
Por acaso, o Vincent é das minhas personagens preferidas. Uma espécie de herói, mas não como os das outras histórias. Gosto de heróis que tenham um bocadinho de mau =)
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