Aquilo que, para uns é algo a ser valorizado, algo honroso, para outros não passa de lixo.
Olhava para a imagem que via no rio que passava suavemente.
O Rapaz Águia há muito deixara de ser um rapaz.
Fora jovem. Fora homem. Fora guerreiro. Fora pai. Fora mestre.
E agora era um ancião.
Ele fora um dos guerreiros que, aquando da chegada do Homem Branco, se recusara a converter quando ele disse que quem não o fizesse estaria condenado ao Inferno deles. E o Rapaz Águia não suportaria nunca abandonar os Anciãos da sua tribo num lugar tão horrível como aquele que o Homem Branco descrevia!
Ele via como os membros da tribo do Homem Branco tratavam os seus Anciãos, e era-lhe estranho.
Para eles, o Ancião era um fardo, apenas mais uma boca para alimentar, um corpo para incomodar e dar trabalho.
Não era conhecimento. Não era sabedoria. Não era a voz das histórias do passado longínquo da tribo. Não era o troar da união entre os seus elementos.
Para o Homem Branco, o que tinha mais valor era o dinheiro. Pedaços de papel que podiam comprar a vida de um homem, a sua liberdade, que podiam fazer uma família sair da terra que conhecia há gerações para que aí passassem linhas de metal e depois uma máquina barulhenta que cuspia fumo, que podiam decidir que um homem não pode mais viver, ou pior, ser ele próprio.
E o dinheiro, para ele, não valia nada. Pedaços de papel que, afinal, se derretiam nas águas do rio e desapareciam como se nunca tivessem existido sequer.
Mas nem todos eram assim, e isso também ele o sabia.
Sabia porque toda a vida conhecera a Rapariga Lobo.
A Rapariga Lobo era da tribo do Homem Branco. Porém, o seu coração era igual ao dele. E o espírito dela era igual ao de muitos guerreiros corajosos da sua tribo.
A cor da pele, percebera ele também há muito tempo – e agora tinha a Sabedoria Anciã a comprová-lo – era algo que pouco ou quase nada tinha a ver com o que vai dentro do espírito ou o coração de um homem ou mulher. A não ser que a pessoa se deixasse controlar completamente por isso, claro.
A Rapariga Lobo nascera no mundo do Homem Branco, mas desde sempre o Rapaz Águia a conhecera como a sua irmã, pois a pequena cria havia sido abandonada num casebre em chamas enquanto os seus pais jaziam mortos na pequena horta que era a sua vida, atingidos pelos seus irmãos Brancos em busca de divertimento.
O seu pai recolhera-a, e a sua mãe declarara-a irmã de Lua, Águia, Chuva e Coiote.
Mas isso tinha sido há muito tempo atrás.
A Rapariga Lobo há muito deixara de ser rapariga.
Fora donzela. Fora mulher. Fora guerreira. Fora mãe. Fora mestre.
E agora, tal como ele, era uma anciã.
As vestes eram as mesmas que as suas. Os cabelos, outrora vermelhos e ondulados, diferentes dos seus pretos e lisos, eram agora brancos e ondulados, como os seus eram brancos e lisos. Mas as penas das vitórias eram as mesmas em ambos.
A vida, independentemente da cor da pele ou da diferença do corpo fora a mesma, a coragem idêntica, a ponto de agora, ao olhar para os dois reflexos, não conseguisse distinguir quem era quem.
Só conseguia ver reflectidas na água as duas almas.
Semelhantes.
Idênticas, ao unirem-se à Natureza para sempre.

Imagem: Spirit_of_the_Sky_Dancers_by_Industrial_Ninja
Para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/
Para a Índia!
6 labaredas:
Um retrato excelente de como a nossa sociedade vê os velhos e como, por exemplo, os índios os vêem. A diferença está mesmo na alma, se é pura verá o que vêem os índios senão...Muito bom
Mas os índios, principalmente os da América do Norte, também arrancavam o escalpe dos seus inimigos, daí que entre a moral de uns e de outros, escolha sempre a minha.
Nem todas as tribos são iguais, e sim, algumas podiam ser, para a nossa visão, bastante violentas.
Em relação a este tópico, aquilo que para nós se tornou uma coisa óbvia - ou seja, que uma pessoa de idade é um estorvo - para eles era uma grande ofensa, porque com a idade a pessoa acumula a sabedoria de muitas eras, quem sabe.
Alguns rituais de passagem para a idade adulta também são muito pesados para nós, mas perfeitamente lógicos para eles.
E não nos fiquemos pelas tribos da América do Norte. Também tempos a América do Sul e o continente africano, ou até mesmo os aborígenes! Só para referir os que mais se detacam
Tu és a minha escritora preferida!
Está lindo!
Obrigada pela didicatória!
Honra e respeito e valores estão em nós desde que nascemos. Cada um deve respeitar-se em cada dia!
E para anciã espero estar a ir, e para mestre espero chegar, cada vez mais, cada vez maior.
Adorei este teu blog!
O som, as imagens... as palavras! Muito bom! Parabéns!
Bjinho
É uma honra, Sr Marquês.
Apareça quando quiser =)
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