“Com estas palavras te conto toda a minha vida, ta entrego com o meu coração.”
“Estás parvo, Timóteo! De certeza que vai dizer que tem noiva e casa posta na terra!”
“Não é nada disso, Catarina! “Com estas palavras te ilumino o dia, como o sol ilumina o mundo pela madrugada no monte!”
“Ainda estás mais parvo, homem! Larga lá isso que já me estás a enervar! A moça tem pretendentes melhores! Este nem abre o bico para lhe dizer uma palavra!”
“Os tímidos surpreendem, já o diz a minha mãe, e ela sabe das coisas.”
“Isso é verdade, a tua mãe é certeira, ó Timóteo.”
“E eu também sou! Dá cá a carta, que a vou ler!”
“Mas és doido? Larga-me da mão, que a Menina deve estar a chegar, e se te apanha com isto na mão, quem ouve sou eu!”
“Deixa só espreitar!”
“Não!!”
“Deixa lá!”
“Que tormento que és! Pronto, leva, mas só para mexer. Não a abras, pelos anjos!”
“Nem uma pontinha?”
“Nada!”
“É fina, afinal… Não deve ter grande coisa.”
“Lá te digo eu: “Menina Maria, é uma preciosidade, mas tenho noiva prometida e um futuro com muitos filhos longe daqui. Ora adeus e muitas felicidades. Assinado, António.”
“Agora quem está parva és tu, Catarina! Não vez a maneira como ele olha para ela?”
“Deixa cá tu agora espreitar a carta!”
“Larga, mulher, não a podes abrir!”
“Deixa só apalpar o peso!”
“Com cuidado!”
Maria entra na cozinha à hora habitual. Os seus olhos vivos captam logo o envelope. Reconhece a letra à distância. É a que ela mais anseia. A que ela mais teme.
Abre-a rapidamente. Para quê ler em voz baixa se percebe os olhares curiosos?
“Querida Maria,
Com estas palavras me prostro a teus pés.
Sem ti, não consigo viver.
Não há sentido em respirar.
O dia em que te conheci fez o meu mundo rodar de pernas para o ar.
Tudo era negro, e o teu olhar devolveu-me a vida como num golpe de magia.
Se devo ter esperança, diz-mo. Estou na fonte.
António.”
Maria corre porta fora para responder.

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