Sunday, January 17, 2010

ESCREVA. Desafio de Janeiro.

“Vou comprar tabaco.”
Alice, inconscientemente, voltou-se.
Soaram-lhe estranhas as palavras do pai.
O tom com que saíram, ainda que fosse habitual dizê-las.
Olhou-o de longe. Conseguiu ainda vislumbrar os seus olhos castanhos, doces, quando fechava a porta. Brilhavam, com um fulgor que desconhecia.
Percebeu depois que eram lágrimas.
Levantou-se e foi até à cozinha, cautelosamente, quase em silêncio, deixando para trás a boneca que imaginava ser a irmã mais nova que ansiosamente pedia.
“Mãe?”
A mãe estava ocupada a limpar a loiça, virada de costas.
“Diz, amor!” – respondeu com uma voz baixa.
“O pai vai onde?”
“Buscar tabaco, filha, não ouviste? Vamos, está na hora de deitar!”
Largou o pano e o copo que segurava com uma mão trémula e insegura que o fez estilhaçar-se em mil pedaços pelo chão antigo mas impecavelmente lavado.
“O meu pai foi comprar tabaco e depois não voltou mais. Fugiu com a Maria, do café.”, dissera-lhe uma vez o Pedro, seu colega da escola. Deixara a mãe e 3 filhos por criar. Ansiara por aventura, agora que percebia que tinha passado o tempo de se aventurar. O pai do Pedro tinha 45 anos, a Maria, 16.
O pai do Pedro voltara, claro. A Maria depressa se embeiçou por outro adolescente e fugiu com ele, levando um filho na barriga. O pai do Pedro perdera a ânsia de aventura e quisera voltar a casa, mas o seu irmão viúvo já se tinha encarregado de reparar a honra da família e apoiar a mulher e os filhos abandonados, casando com ela.
Alice tremeu.
“Mãe, o pai volta?”, perguntou quase sem voz.
Um som na porta despertou-as.
Era o pai que entrava.
No regaço trazia o que Alice pedira: um bebé.
“É o filho da Maria. É um rapaz. Nós somos os padrinhos e vamos criá-lo.”





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