Esta família não é uma família normal.
Ou por outra, até é. Sempre nos conseguimos camuflar bem na multidão. Passar por pessoas comuns. Mas não o somos, de facto.
E, apesar de, por motivos de descrição apenas, sermos obrigados a isso, não nos envergonhamos de modo nenhum daquilo que somos.
Entre nós, até é motivo de orgulho!
Somos, agora, seis irmãos.
Não, não é por aqui que devo começar. A nossa história iniciou-se antes.
Muito tempo antes.
O nosso pai chamava-se João.
Já era João antes de ser nosso pai.
Aliás, houve uma altura em que isso nem sequer estava nos planos dele. Ia receber as ordens, encerrar-se num Seminário durante uns anos, e ser um modesto pároco de aldeia.
Mas a vida trocou as voltas a muita gente.
Aos irmãos mais velhos, que se foram sem estar à espera.
Ao pai, que morreu novo demais, desgostoso, e sem ter o cuidado de deixar a herança bem assegurada.
E o João acabou por se ver, aos 24 anos, com as propriedades do pai nas mãos, um negócio para rentabilizar e, eventualmente, uma descendência para lhe dar continuidade e ao património.
O João começou a pensar em casar.
Mas as raparigas da aldeia já estavam habituadas a vê-lo como o futuro pároco da aldeia.
O João era um bom amigo. Mas não um marido que elas quisessem desposar.
Calhou, num Verão parco em sol e abundante em chuvas, vir para a aldeia uma família inglesa. Na altura, não causou surpresa. Era habitual a zona à beira do Douro estar pejada de abastadas famílias oriundas das terras de sua majestade, e a aldeia de João não foi única nesta situação.
Passando o fru-fru inicial da curiosidade pelos elementos da família, quais figuras do circo ambulante que passava por ali uma vez a cada 3 anos, se não se perdesse nas estradas, toda a gente pode retomar a sua vida habitual.
Foi assim que o João conheceu a Philippa.
Ou a Philippa conheceu o João, como queiram.
A Philippa achava que já não estava na idade de casar.
Gostava da sua vida pacata, sossegada, sem preocupações, sem sobressaltos.
Além dos que o pai lhe dava, claro, que depois da morte da mãe resolveu casar com outra senhora, bastante digna até. O problema foi querer manter uma vida paralela com a governanta da casa, e acabar por ter tantos filhos bastardos como legais a correr-lhe atrás das botas pelas fazendas fora.
Philippa já tinha 27 anos.
Para ela, agora, era só esperar a morte.
Aventuras? Desafios? Não, nada disso era para ela! Para outras pessoas, mais corajosas, mais dignas, quem sabe, mais inspiradas, mas não para a sua vida.
Não se iria cansar da espera. Não era do seu feitio.
Philippa era uma estranha para aquelas gentes.
Parecia, realmente, uma princesa, apesar de ela própria se olhar no espelho e se achar consideravelmente vulgar.
Tinha os cabelos dourados como os trigais, e os olhos azuis como o ribeiro, e isso chegava para o povo a ver como uma deusa.
Philippa era serena, calma, sensível. Mas não fraca.
Isso percebeu João na primeira vez que a viu com olhos de ver, quando ela se meteu na frente do capataz que ia vergastar uma velha que caíra com o peso da meada que lhe ia nas costas.
Antes de Philippa abrir a boca para soltar palavras duras numa língua que ele não percebia, já a ferocidade do seu olhar o tinha fulminado e pregado ao chão.
Baixou os olhos, baixou a arma que levantara ao alto, murmurou um “sim, senhora dona”, e retirou-se intrigado com a mudança súbita nos humores da rapariga habitualmente ensimesmada que estava habituado a conhecer.
João observava a cena de longe, e decidiu que esta ia ser a mulher dele.
Até porque além dela, só havia disponível a sua irmã Elizabeth, cerca de três anos mais nova, mais casadoira, mais roliça, mas que também já tinha corrido os catres de todos os rapazes solteiros e alguns casados da aldeia. E a maioria dos celeiros. E eiras.
Bem, era espevitada, a cachopa.
Lá se arranjou então o casório. O pai de Philippa bem espantado com os desejos do rapaz, mas solícito à sua sugestão, a noiva também espantada com a reviravolta que via a sua vida dar, mas sem grande preocupação com o poderia vir no futuro, tal era a sua natureza.
Ora Philippa e João mal se conheciam, é certo, mas desde que começaram a cortejar-se mais frequentemente logo descortinaram com as semelhanças e gostavam do rumo que as coisas estavam a tomar.
Depois de casada, Philippa – e o seu marido, claro – também descobriu que os calores que a sua irmã sentia eram mesmo defeito de fabrico, herança de seu pai, e disso resultou a prole que se formou em poucos anos.
E também os filhos bastardos de Henry, o irmão mais novo, que veio para um país mais caloroso no auge do seu desenvolvimento hormonal, e que não se coibiu de espalhar os genes da família pela terra e arredores, nomeadamente por ocasião das festas e romarias.
Ah, a prole!
Somos nós.
A Blanche foi a primeira filha, herdou o nome da avó materna, mas morreu bebé ainda.
Depois veio Afonso, como o bisavô de João.
Cada um dava o nome à vez. Era complicado, porque umas vezes saia em inglês, e outras em português, e nem sempre as gentes se entendiam.
Que o diga Edward! Veio a seguir ao Afonso. “Que raio de nome tinha o cachopo! Eduarte? Duarte?”. Bem queria ele que o largassem! “Ó rapaz, dize cá, como é a tua graça, afinal?”
Depois, fui eu. Pedro, como o meu avô, pai de meu pai.
Depois o Henrique. Ou Henry, como lhe chamava a mãe.
A seguir, a Isabel, como a minha bisavó paterna. Depois o João, como o pai, entretanto, morreu o Afonso, e no fim, mesmo no fim de todos, nasceu o Fernando.
Contaram?
Pois… o oitavo filho calhou ser lobisomem.
Se fosse rapariga era bruxa.
Era a herança da família do lado do meu pai.
Nada que nos incomodasse, claro.
Quer dizer, incomodou só da primeira vez, que foi uma surpresa, ninguém estava à espera, o Fernando estava ao colo do Henrique, quase que se lançava aos olhos, mas um movimento rápido do irmão mais velho permitiu que fosse só ao peito. Deixou-lhe cicatrizes para o resto da vida.
E uivou a noite toda.
Foi aborrecido.
A casa estava longe da aldeia, as pessoas pensaram que fosse um lobo no monte, mas cá em casa, é óbvio, não se conseguiu pregar olho “Ó Fernando, tu pára com isso, que já nem te posso ver!”
Mas a mãe tinha paciência para tudo, lá acalmou o lobito desgovernado e tudo se resolveu.
Na Lua Cheia seguinte já estávamos de sobreaviso.
É claro que eu, o Henrique e o Duarte fomos essa semana para a casa do avô John sem dar cavaco do assunto a ninguém, e ele, todo contente, achava que íamos exercitar as nossas qualidades bélicas e efusividade masculina com os bastardos que ele lá tinha espalhado pelo campo.
Não. Foi assunto que ficou só entre nós.
Lá nos fomos habituando e, à vez, todos cuidávamos da situação, quando chegava a altura.
Às tantas, lá percebemos que não era só na nossa família que isto se passava, mas ninguém falava disso.
Claro que há um limite.
Aos 60 anos, acaba a maldição.
Não sabemos porquê.
O pai nunca nos soube explicar. Ou nunca quis.
A reacção dele na primeira noite de Lua Cheia que revelou a característica especial do Fernando foi bastante suspeita.
Agarrou nos tarecos dele e foi passar a noite ao campo. A vigiar o pinhal dos saca-rabos.
O pai era alérgico ao pêlo dos saca-rabos.
Só se ele se queria matar sozinho…
Não enganou ninguém. Depois percebemos porquê…
Bem, durante estes quase 60 anos que se passaram na história da nossa família, muitas coisas aconteceram.
O Afonso, parvo, tinha a mania que era invencível. E, afinal, não era.
O Duarte, coitado, queria era estar sossegado da vida, teve de tratar dos pormenores todos das terras, uma vez que era ele que ia herdar. Eu e o Henrique ganhámos uma parcela de terreno mais modesta, mas que nos dava muito menos preocupação. A Isabel foi casar longe. O Fernando ficou por cá, sempre debaixo do olho dos irmãos. Nós é que tomávamos conta dele.
Entretanto, também o pai se foi, e a família foi crescendo com filhos e netos.
Claro que todos sabiam do segredo. Claro que havia mais.
A Catarina, 8ª filha do Duarte e da Leonor, era bruxa.
Os outros irmãos tiveram mais cuidado. Especialmente o Henrique, claro! Mas o Duarte herdou as características da mãe: a pacatez, e a fogosidade escondida nas veias à espera do rastilho que a ateasse.
Juntávamo-nos sempre no Natal. Era o aniversário secreto do Fernando. Foi na Lua Cheia do Natal que aconteceu a primeira vez. Todos os anos celebrávamos o Natal de forma especial.
Ele era o nosso irmão especial, afinal.
Este ano, pela primeira vez, seria diferente. A partir de agora, acabava-se a tormenta das Luas Cheias.
Este ano, todos nós, os que estávamos ligados, os seis irmãos que restavam, atingiam a barreira dos 60.
Ia ser um ano especial, o Fernando avisara.
E foi.
Este ano, o Fernando vinha despedir-se.
Acabava a ligação dos seis laços.
Ia concretizar o seu sonho.
Ia correr o mundo, conhecer terras e pessoas e paisagens diferentes.
Ia cumprir o seu destino.

Imagem: Destiny, by theparadox. DeviantArt
Para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/
7 labaredas:
Sim, leram bem, fui buscar a Ínclita Geração para isto! Estavam eles para ali agastados, coitaditos, e eu achei que bem precisavam de uma animação!
Olá Marta, obrigada desde já pela participação.
Falta colocares no texto uma hiperligação para a Fábrica.
Podes usar um dos logos disponíveis na Fabrica ou apenas algo do género "para Fábrica das Letras", com uma hiperligação nessa frase.
Bom Natal.
Mas que velocidade que este teu texto tem, lol.
Engraçado e transcendental.
Há famílias normais? Mesmo as que pensam se-lo não o são. Interessante a história de família em que não faltam as bruxas e os lobisomens.
Mais um texto muito bem escrito.
adorei...um turbilhão de acontecimentos...lindo parabens!
Um beijo
Uma excelente narrativa, intrigante, que nos deixa presos até à última linha..
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