Wednesday, October 07, 2009

Cativeiro Lunar - Conto 7.1.

A NEGRA BALADA DE MARY ROSE

ALGUMAS PALAVRAS

Aqui, o lago é gélido durante o Inverno.
A neve cai pesada e densa. O vento, frio e cortante, em dias de tempestade, quase arranca as árvores do chão. O ávido mar do Norte parece ambicionar engolir furiosamente toda a ilha.
O ruído em nosso redor é ensurdecedor, mas, aqui dentro, atrás destes portões altos e muros de pedra cinza, o silêncio é pesado. Por vezes, até faz com que nos esqueçamos de respirar.
O lago é uma pequena ilha de calma no meio do turbilhão.
Quando a temperatura finalmente baixa e as árvores ficam cadavericamente despidas, as suas águas congelam à superfície, os peixes recolhem aos buracos exíguos, as plantas mais fracas em seu redor cedem e desistem de viver. O resto flutua misturado entre a sonolenta inércia e o pó que se desprendem do fundo.
Anos e anos e anos de frio no corpo e, agora, nos ossos.
Seria algo capaz de me matar.
Se eu não estivesse já morta.
O meu nome é Mary Rose, e o meu corpo conhece o fundo deste lago desde o final do Verão de 1873.
Falo-vos agora como espectro, e estou aqui para contar não a minha história, mas a de 5 pessoas que ainda não terminaram de contar a sua, porque estas paredes duras e cheias de humidade se fecharam silenciosamente sobre elas.
O meu próprio conto é breve e simples.
Nasci em Havenfordwest, num lugar verde e luminoso. Era a sétima criança de uma família pobre e numerosa. Nessa altura, éramos muitos nessa situação. O meu pai bebia, e achava-se no direito de violar as filhas.
Jane, de 15 anos, violada com frequência desde os 7 anos de idade, acabou por engravidar. Na primeira vez tinha 12 anos, mas um “tratamento” especial aplicado pelo meu pai acabou por a fazer abortar. Por pouco, também a ia levando a ela.
Desta vez, cozeu vários bolsos no seu único vestido de fazenda, encheu-os de pedras e deixou-se afundar pesadamente no rio com a criança de carregava no ventre inchado de 7 meses.
Foi aqui o início da morte da minha mãe.
Elizabeth, de 14, fugiu de casa com o Liam Keswick que, assim que descobriu que o pai a violava, veio cá dar-lhe uma sova que o impediu de trabalhar durante 2 meses. Não o impediu de beber, porém.
Christina, de 13 anos, era demasiado selvagem para se deixar apanhar. Quase não falava, excepto por alguns grunhidos titubeantes quando absolutamente necessário, e andava sempre embrenhada no mato. Por vezes, levava o pequeno Edgar, o único varão da família, o 8º filho.
Seria o orgulho do meu pai, herdeiro do seu nome, se não tivesse nascido com as pernas defeituosas.
O seu estado de eterna fragilidade fê-lo ganhar, porém, o amor sincero, o carinho extremoso e a protecção feroz das suas 7 irmãs
A frágil e doce Charlotte, pobrezinha, só tinha 8 anos quando ficou uma vez sozinha em casa com ele, porque estava ainda débil das febres que nos haviam atacado nesse mês, e todas nós tínhamos ido ajudar a mãe na apanha dos morangos, na quinta dos Connor.
Quando chegámos a casa, noite cerrada, que o caminho era longo até aos Connors, Charlotte estava deitada na sua cama, de olhos vítreos fixando a boneca de pano que Jane lhe fizera, com um fio de sangue a correr-lhe pelo queixo pálido abaixo à luz bruxuleante da vela que a minha mãe empunhava na sua mão trémula de ódio crescente e raiva prestes a explodir.
As suas partes íntimas estavam desfeitas, ambos os seus braços partidos de forma grotesca, e não respirava.
Foi a gota de água para a minha mãe.
Nessa noite, depois do meu pai adormecer, bêbado, pesado e sem remorsos pelo que fizera, a minha mãe cravou decidida a faca de matar os porcos no seu peito, pegou nos filhos que lhe restavam e partiu para Londres sem olhar para trás uma única vez sequer.
Partiu, sem imaginar, creio, em direcção à morte dela.
Na madrugada em que fugimos choveu sem parar. Daquela chuva fria e pesada que não nos deixa ver nada à frente. Seria um presságio, se acreditássemos nisso. Mas, de qualquer forma, não nos era possível imaginar algo pior do que o que deixáramos para trás.
Em Londres, depressa arranjámos trabalho numa fábrica suja e cheia de vapor. Depressa encontrámos um buraco escuro e fétido ao qual chamar casa. Os dias eram longos e trabalhosos. As noites, escuras e frias.
Mas tínhamo-nos umas às outras: a minha mãe, Christina, Caroline, Annie e eu. Todas nos protegíamos umas às outras e a Edgar. Os únicos aconchegos eram uma sopa quente à noite, feita com água e pouco mais, e os braços umas das outras para nos aquecermos. Não tínhamos mais ninguém, excepto a nós próprias, e cada vez mais nos tornávamos uma só.
Pouco a pouco, no entanto, todos tombámos: a tuberculose instalou-se no bairro escuro onde morávamos.
Primeiro, foi Edgar, e depois Christina, que não o largara nunca. Em breve, apercebemo-nos que todas estávamos contaminadas.
A minha mãe aguentou o possível, mas penso que terá sido a dor de ver os filhos morrer pouco a pouco e o desespero por não poder fazer nada o que verdadeiramente a levou a desistir e ceder finalmente.
O seu leito de morte foi partilhado com as suas últimas filhas: Caroline, de 12 anos, Annie, de 10, e eu, que na altura tinha 6, e nunca havia caído nas mãos infectas do meu pai.
Mas haveria de cair noutras parecidas, e de intenções igualmente “paternalistas”.
Um dia, fui gentilmente acordada num lugar branco e limpo, com janelas altas por onde a luz do sol passava generosa. Uma das janelas estava entreaberta, e a brisa trazia o aroma doce dos floripôndios do jardim. À minha frente, os olhos doces e o sorriso bondoso da enfermeira Lucy.
Segundo me contou quando regressei ao mundo dos vivos, havia sido encontrada há algumas semanas junto dos cadáveres da minha mãe e das minhas 2 irmãs.
Pensaram que estávamos todas mortas, de tal forma estávamos entrelaçadas umas nas outras, com o receio de irmos sozinhas para o outro mundo e de nos perdermos.
Uma enfermeira, pouco mais velha do que Jane seria, e com o mesmo tipo de doçura sofrida no olhar, daquela que as pessoas não conseguem esconder quando têm pena dos cachorrinhos abandonados, apercebeu-se que eu ainda respirava, mas estava tão fraca e desidratada que não lhes foi possível despertar-me do limbo onde me movia nesse momento.
Recordo vagamente, no nevoeiro que se tornou a minha mente, a figura de branco e a mão quente que não abandonou o meu lado até eu despertar, e que cuidou de mim até ter a certeza que a minha batalha contra a Morte estava ganha. Pelo menos desta vez. Era Lucy, sempre Lucy.
Salvei-me por pouco, confessou-me.
Foi o odor do cadáver da minha mãe, por se ter tornado tão mais intenso que os outros odores fétidos que sobrevoavam o bairro, que alertou para algo que não estava bem.
Ninguém, porém, sentira a nossa falta. Uma mulher sozinha e três meninas. Nem uma só alma deu pela nossa ausência.
Uns dias depois, trouxeram-me para a Ilha.
Para o orfanato.
Eu era, agora, uma pobre órfã. Que sorte tinha, disseram, em vir para um orfanato novo, numa ilha paradisíaca, com um jardim maravilhoso, um prado verdejante e gente boa e caridosa para cuidar de mim.
Mas a Ilha pareceu-me uma prisão.
As paredes frias do edifício causaram-me receio desde o primeiro momento em que as vislumbrei, ao longe no caminho, pela primeira vez.
Paredes gigantes que amedrontavam. As chaminés portentosas contra um céu carregado de nuvens. Janelas que espreitavam maliciosas como olhos de um animal selvagem que vai atacar sorrateiro e imperceptível.
Um arrepio correu-me o corpo, e os pêlos dos braços, apesar de cobertos por um casaco quente, eriçaram-se todos.


TOM CARROLL

Chegou, finalmente, a altura de derrubar estas paredes, já que as suas portas e janelas não se quiseram nunca abrir para libertar os monstros que insistiam em ocultar.
A primeira parede a derrubar é a do quarto norte, o mais estreito deles todos, ao qual nem todos tinham o direito ou a sorte de aceder. Os eleitos voltavam diferentes, depois de conhecer esse quarto. Um não voltou. O primeiro deles todos.
Tom.
Tom não era como os outros rapazes. Era mais triste. Os seus grandes olhos azuis lembravam a água, mas não a água brava e monstruosa do mar que rodeia a Ilha, ou a água lodosa e malcheirosa do Thames, que cheguei a ver quando a minha mãe nos levou para Londres para morrer nova, infeliz e desesperada.
Não. Os olhos de Tom eram da cor da água clara da nascente, na pequena aldeia de Wales onde nasci. Imagino como seriam mais belos ainda se ele tivesse sido um rapazinho feliz, ou friamente cortantes e mortalmente irresistíveis, no caso dele se ter tornado um jovem cruel. Mas a desgraça imprimiu neles uma sombra que a natureza nunca lhe poderia dar de livre vontade nem por um arroubo de inspiração.
Tom Carroll tinha 6 anos quando aqui chegou, a mesma idade que eu, num dia enevoado de Março, agarrado a um destroço do que fora a camisola do seu pai, que morrera esmagado numa prensa, na fábrica onde era explorado. Como os patrões alegaram que a culpa tinha sido dele, esquivaram-se da responsabilidade de tratar do funeral, e das duas crianças que ficavam agora sem ninguém, uma vez que a Senhora Carroll havia falecido de febres 4 anos antes.
Pareço demasiado trágica, mas não o sou mais que a realidade.
Assim, Tom, de 6 anos, e a sua irmã Amy, de 9, foram literalmente atirados para a Ilha.
Amy deixou de falar, com o choque que a morte do pai lhe causou. Os seus olhos azuis, iguais aos do irmão, olhavam-nos expressivamente e eram capazes de nos descrever o mundo que ela nunca iria conhecer, mas dos seus lábios nunca uma palavra se ouviu.
Conheci-o numa tarde de Verão igual àquela em que morri, em que estava imersa em memórias e ressentimentos, pairando distraída na margem do lago.
Simpatizei logo com ele.
Com a dor, o desespero e o desconforto que emanavam dele.
Tão igual a outros que já conhecera.
Mas, no entanto, algo nele o destacava.
A falta de brilho no olhar. A Sombra.
A esta altura, ainda não o podíamos saber, mas o pouco brilho que saia de si seria mais tarde – muito em breve – completamente extinguido.
Mas, como disse, simpatizei com ele. E algo que nunca pensara ocorria-me agora.
Agitei um pouco a água.
Quem olhasse do mundo de lá, pensaria que uma leve e invejosa brisa do norte quisera interromper o calor morno e preguiçoso daquela tarde.
Quem olhasse do mundo de cá lançar-me-ia um pungente olhar de censura.
Mas, neste momento, neste lugar, só estava eu. E Tom.
Tom olhava fixamente a água no lugar onde esta vibrava.
E eu continuava a agitá-la com suavidade.
Então, ele olhou para mim, eu sorri-lhe, ele sorriu-me de volta e ficámos amigos.

A minha amizade com Tom desenrolou-se de forma bastante natural, pois ambos tínhamos interesses comuns, além de um percurso de vida precocemente sinistro.
Obviamente, ninguém se apercebeu que Tom se retirava discretamente de vez em quando para arengar com um fantasma à beira do lago.
Obviamente, ninguém se apercebeu que o vazio que sentira com a morte do pai e o silêncio eterno da irmã se ia encontrando um pouco mais preenchido desde que começara a abrir as comportas da dor que acumulava cada vez mais fundo dentro do seu peito.
Obviamente, ninguém se apercebeu que Tom partilhava a sua Sombra.
É claro que foi bom para mim também, tenho que o confessar.
Nunca tinha contado a minha história a ninguém, e Tom era um ouvinte ávido.
Graças à sua companhia, voltei, de certo modo, um pouco à vida. As coisas em meu redor pareciam-me de novo coloridas, e manifestei uma óbvia curiosidade pelo que o mundo então se tornara.
Graças a Tom, voltei a querer fazer perguntas e a querer procurar as respostas.
Graças a Tom, o meu mundo de espectros foi desfazendo-se da bruma que o rodeava.
Graças a Tom, infelizmente, voltou a encher-se de dor e desespero, e o espinho afiado que tinha cravado no lugar do coração enterrou-se com maior profundidade, desta vez, acredito que para sempre.


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