Regina nasceu com o cabelo vermelho.
Da cor do fogo selvagem e destruidor.
Da cor do braseiro que aquecia a casa em noites gélidas de Inverno, quando a neve impedia de sair e o frio quase de respirar.
Um vermelho que não combinava nada bem com as intricadas regras vitorianas sob as quais a sociedade de Londres se regia.
Regina desprezava esse facto, pois o seu temperamento era fogoso e rebelde como a cor que lhe adornava a face pálida.
Olhos verdes de plantas exóticas, luminosos, vivos, sedentos.
E Regina ria à gargalhada, escandalosamente.
A sua irmã Isabella era o seu oposto.
Isabella tinha cabelos negros, olhos densos e profundos, uma expressão de dureza que contrastava com a sua idade. Isabella raramente sorria, e dos seus lábios poucas palavras saiam, e apenas quando estritamente necessárias.
Em comum, tinham ambas a pele de uma brancura cristalina, e uma solidez de ideais que competia com a de muitos idealistas convictos.
Isabella parecia ter um coração de gelo, enquanto o de Regina era de fogo.
De facto, apesar das diferenças atordoantes, ambos haviam sido estilhaçados.
Pela mesma pessoa.
Não havia muito que pensar, agora, no final de tudo.
Regina e Isabella sabiam bem qual o preço que seria cobrado pelo seu desejo, e estavam prontas a pagá-lo.
Sentaram-se ambas no degrau da porta, esperando calmamente pela subida da Lua Cheia pelos céus. Era necessário esperar pelo momento certo. Depois de tanta espera, depois de tanta mágoa, desespero e desilusão, era pouco o que lhes pediam agora.
Em breve, esse momento chegou. Isabella abriu completamente a porta do casebre no meio da floresta. Regina abriu as duas janelas, e a Lua entrava gloriosa por todo o compartimento.
A lareira que tinham acendido antes dava a luz que lhes faltava ao sortilégio. A luz do fogo.
Lentamente, Regina desenhou o círculo no chão, com um pedaço de carvão negro. Isabella estava dentro do círculo com ela quando o fechou, e ambas desenharam os símbolos do poder que desejavam invocar.
Sentaram-se no chão, frente a frente, entre a luz da Lua e a do fogo, e olharam-se fundo nos olhos.
Ambas tinham a mesma visão.
No final de tanta luta, de tanta discórdia, fogo e gelo, brilho e escuridão, dia e noite, ambas sabiam que eram parte do mesmo, que eram uma só.
Parte de Alexander, também.
Não havia forma de lhe fugir.
O ritual foi rápido. As palavras adequadas na altura própria. Dois cortes certeiros. E estava feito. Só precisavam de esperar.
Esperar que tudo terminasse.
Esperar que tudo comecasse.
Regina olhou a Lua que se reflectia nos olhos de Isabella, expirou finalmente, nos braços da irmã, e abandonou a vida decidida. Isabella, com doçura, abraçou-a, e cerrou-lhes os olhos. Era mesmo de Regina, enfrentar a Morte de olhos abertos.
Aninhou-a junto de si e esperou a sua vez também, sentindo um frio estranho percorrer-lhes os membros de forma suave. Fechou os olhos, enroscando a face no emaranhado de cabelos vermelhos junto do pescoço de Regina, e deixou-se ir devagar, quase sem dar por ela.
*************
No clube, o serão corria agradável para Alexander.
As festas da alta sociedade londrina eram, para dizer o mínimo, vistosas.
Mr Morris acabara de lhe falar num contrato com uma firma que se queria estabelecer em Paris, e isso trouxe-lhe um sorriso aos lábios finos. Paris era uma cidade rica, do seu ponto de vista! Esse contrato era a desculpa que precisava para mudar de ares, para ir de novo à aventura e deixar esta rotina estagnada e sem surpresas que se tinha tornado o seu dia-a-dia. Para fugir, de certa maneira.
Um pequeno golpe do Destino, ao ver dele.
Pensou fugazmente no que iria deixar para trás.
E voltou a sorrir.
A situação começava a tornar-se insustentável. Em breve seria desmascarado.
E definitivamente aborrecida, apesar dos riscos que corria.
Talvez um pouco perigosa, mas nada de muito preocupante.
Regina depressa se recomporia da desilusão. Talvez reagisse mal à descoberta. Talvez gritasse, chorasse, lutasse, agarrasse, jurasse morrer, amar para sempre, nunca esquecer, nunca mais viver, morrer de amor. Era pessoa para isso. Mas depressa outra borboleta esvoaçante e colorida lhe captaria o olhar e lhe faria voltar a cor aos olhos brilhantes, e ela esqueceria. De vez em quando, talvez se lembrasse, mas apenas uma ténue recordação a perder cada vez mais a cor. As mulheres de fogo são assim.
Isabella reagiria de forma diferente. Isabella era discreta, não se conseguia dizer o que ia no seu coração, na sua cabeça, por detrás do seu olhar. Isabella aceitaria calada, sem um gesto, sem um bater de pestana. Sem uma lágrima. Mas Isabella não era de sentir as coisas. Provavelmente para ela, pensou Alexander, despreocupado, a sua pessoa nem sequer teria chegado perto do seu coração de gelo, quanto mais inflamá-lo!
Foi com algum desprendimento que pediu o sobretudo no bengaleiro do clube e um pequeno galanteio a uma jovem senhora que passava a horas tardias na rua que Alexander desceu para o centro iluminado.
Sim, Paris era certamente uma boa opção, sorriu, enquanto pensava nas fabulosas novas aventuras à sua frente no caminho, as luzes, as damas belas e sofisticadas, os néctares inebriantes, as cores maravilhosas, os aromas a desvendar, as cores brilhantes.
Só um pouco mais tarde Alexander se apercebeu de uma nódoa de sangue que se alastrava lentamente pela sua camisa. Lenta, mas impossível de estancar. Sangue denso, vermelho, mas ao mesmo tempo negro. Um sangue diabólico saindo-lhe do coração. Esvaindo-lhe a vida.
“Fugir? Fugir para onde, meu amor?” Duas vozes familiares ecoavam-lhe em simultâneo no cérebro.
Na manhã seguinte, no casebre da floresta, os corpos esvaídos de Regina e de Isabella foram encontrados frios e abraçados por uma pastora que ali passava. A rapariga nunca vira na vida, ao mesmo tempo, tanta tristeza e tanta paz, e foi condenada a carregar a lembrança desse momento no seu olhar triste para o resto da sua existência.
Alexander sucumbiu incrédulo à paragem lenta mas decidida do seu coração, ao sangue que optara por lhe deixar as veias vazias e correr livre e louco por entre as pedras da calçada onde Alexander jazia agora, o seu corpo em Londres, os seus sonhos a desvanecerem-se algures na luminosidade de Paris.
De manhã, nada restava dos sonhos. Apenas sangue espalhado pelo chão, pele exangue e olhos vítreos que fixavam o ponto no céu onde, a uma certa hora, a da sua morte, passara a Lua Cheia.









