Wednesday, August 03, 2011

Fogo e Gelo.

Regina nasceu com o cabelo vermelho.

Da cor do fogo selvagem e destruidor.

Da cor do braseiro que aquecia a casa em noites gélidas de Inverno, quando a neve impedia de sair e o frio quase de respirar.

Um vermelho que não combinava nada bem com as intricadas regras vitorianas sob as quais a sociedade de Londres se regia.

Regina desprezava esse facto, pois o seu temperamento era fogoso e rebelde como a cor que lhe adornava a face pálida.

Olhos verdes de plantas exóticas, luminosos, vivos, sedentos.

E Regina ria à gargalhada, escandalosamente.

A sua irmã Isabella era o seu oposto.

Isabella tinha cabelos negros, olhos densos e profundos, uma expressão de dureza que contrastava com a sua idade. Isabella raramente sorria, e dos seus lábios poucas palavras saiam, e apenas quando estritamente necessárias.

Em comum, tinham ambas a pele de uma brancura cristalina, e uma solidez de ideais que competia com a de muitos idealistas convictos.

Isabella parecia ter um coração de gelo, enquanto o de Regina era de fogo.

De facto, apesar das diferenças atordoantes, ambos haviam sido estilhaçados.

Pela mesma pessoa.

Não havia muito que pensar, agora, no final de tudo.

Regina e Isabella sabiam bem qual o preço que seria cobrado pelo seu desejo, e estavam prontas a pagá-lo.

Sentaram-se ambas no degrau da porta, esperando calmamente pela subida da Lua Cheia pelos céus. Era necessário esperar pelo momento certo. Depois de tanta espera, depois de tanta mágoa, desespero e desilusão, era pouco o que lhes pediam agora.

Em breve, esse momento chegou. Isabella abriu completamente a porta do casebre no meio da floresta. Regina abriu as duas janelas, e a Lua entrava gloriosa por todo o compartimento.

A lareira que tinham acendido antes dava a luz que lhes faltava ao sortilégio. A luz do fogo.

Lentamente, Regina desenhou o círculo no chão, com um pedaço de carvão negro. Isabella estava dentro do círculo com ela quando o fechou, e ambas desenharam os símbolos do poder que desejavam invocar.

Sentaram-se no chão, frente a frente, entre a luz da Lua e a do fogo, e olharam-se fundo nos olhos.

Ambas tinham a mesma visão.

No final de tanta luta, de tanta discórdia, fogo e gelo, brilho e escuridão, dia e noite, ambas sabiam que eram parte do mesmo, que eram uma só.

Parte de Alexander, também.

Não havia forma de lhe fugir.

O ritual foi rápido. As palavras adequadas na altura própria. Dois cortes certeiros. E estava feito. Só precisavam de esperar.

Esperar que tudo terminasse.

Esperar que tudo comecasse.

Regina olhou a Lua que se reflectia nos olhos de Isabella, expirou finalmente, nos braços da irmã, e abandonou a vida decidida. Isabella, com doçura, abraçou-a, e cerrou-lhes os olhos. Era mesmo de Regina, enfrentar a Morte de olhos abertos.

Aninhou-a junto de si e esperou a sua vez também, sentindo um frio estranho percorrer-lhes os membros de forma suave. Fechou os olhos, enroscando a face no emaranhado de cabelos vermelhos junto do pescoço de Regina, e deixou-se ir devagar, quase sem dar por ela.

*************

No clube, o serão corria agradável para Alexander.

As festas da alta sociedade londrina eram, para dizer o mínimo, vistosas.

Mr Morris acabara de lhe falar num contrato com uma firma que se queria estabelecer em Paris, e isso trouxe-lhe um sorriso aos lábios finos. Paris era uma cidade rica, do seu ponto de vista! Esse contrato era a desculpa que precisava para mudar de ares, para ir de novo à aventura e deixar esta rotina estagnada e sem surpresas que se tinha tornado o seu dia-a-dia. Para fugir, de certa maneira.

Um pequeno golpe do Destino, ao ver dele.

Pensou fugazmente no que iria deixar para trás.

E voltou a sorrir.

A situação começava a tornar-se insustentável. Em breve seria desmascarado.

E definitivamente aborrecida, apesar dos riscos que corria.

Talvez um pouco perigosa, mas nada de muito preocupante.

Regina depressa se recomporia da desilusão. Talvez reagisse mal à descoberta. Talvez gritasse, chorasse, lutasse, agarrasse, jurasse morrer, amar para sempre, nunca esquecer, nunca mais viver, morrer de amor. Era pessoa para isso. Mas depressa outra borboleta esvoaçante e colorida lhe captaria o olhar e lhe faria voltar a cor aos olhos brilhantes, e ela esqueceria. De vez em quando, talvez se lembrasse, mas apenas uma ténue recordação a perder cada vez mais a cor. As mulheres de fogo são assim.

Isabella reagiria de forma diferente. Isabella era discreta, não se conseguia dizer o que ia no seu coração, na sua cabeça, por detrás do seu olhar. Isabella aceitaria calada, sem um gesto, sem um bater de pestana. Sem uma lágrima. Mas Isabella não era de sentir as coisas. Provavelmente para ela, pensou Alexander, despreocupado, a sua pessoa nem sequer teria chegado perto do seu coração de gelo, quanto mais inflamá-lo!

Foi com algum desprendimento que pediu o sobretudo no bengaleiro do clube e um pequeno galanteio a uma jovem senhora que passava a horas tardias na rua que Alexander desceu para o centro iluminado.

Sim, Paris era certamente uma boa opção, sorriu, enquanto pensava nas fabulosas novas aventuras à sua frente no caminho, as luzes, as damas belas e sofisticadas, os néctares inebriantes, as cores maravilhosas, os aromas a desvendar, as cores brilhantes.

Só um pouco mais tarde Alexander se apercebeu de uma nódoa de sangue que se alastrava lentamente pela sua camisa. Lenta, mas impossível de estancar. Sangue denso, vermelho, mas ao mesmo tempo negro. Um sangue diabólico saindo-lhe do coração. Esvaindo-lhe a vida.

“Fugir? Fugir para onde, meu amor?” Duas vozes familiares ecoavam-lhe em simultâneo no cérebro.

Na manhã seguinte, no casebre da floresta, os corpos esvaídos de Regina e de Isabella foram encontrados frios e abraçados por uma pastora que ali passava. A rapariga nunca vira na vida, ao mesmo tempo, tanta tristeza e tanta paz, e foi condenada a carregar a lembrança desse momento no seu olhar triste para o resto da sua existência.

Alexander sucumbiu incrédulo à paragem lenta mas decidida do seu coração, ao sangue que optara por lhe deixar as veias vazias e correr livre e louco por entre as pedras da calçada onde Alexander jazia agora, o seu corpo em Londres, os seus sonhos a desvanecerem-se algures na luminosidade de Paris.

De manhã, nada restava dos sonhos. Apenas sangue espalhado pelo chão, pele exangue e olhos vítreos que fixavam o ponto no céu onde, a uma certa hora, a da sua morte, passara a Lua Cheia.


Imagem: Shadows, by Valentina Kallias

Para:


Tuesday, November 23, 2010

Transparência.

FÁBRICA DE LETRAS E PALAVRAS

DESAFIO DE NOVEMBRO


TRANSPARÊNCIA

Katherine olhou-se de novo ao espelho.

Gostava!

O pai ia-se passar!

A mãe, de certezinha, ia cair para o lado!

As irmãs mais velhas escandalizar-se-iam.

As mais novas sentiriam um misto de escândalo, incredulidade e desejo de ter a mesma audácia.

O único com sangue-frio nesta situação seria James, o varão da família.

Ele sim, no meio do silêncio mortificante que rodeava a sala, avançaria calmamente na sua direcção, pararia frente a ela, eles olhar-se-iam de frente, nos olhos, um olhar de desafio da parte de ambos – “Desafias os meus pilares?”, diria o olhar dele, “Sim, desafio-os!”, diria o dela – e uma sonora bofetada seria sentida na pele rosada da sua face e ecoaria por todo o imponente salão de festas da casa.

Seria exactamente assim.

Bastava-lhe fechar os olhos para imaginar toda a sequência de acontecimentos, como se em câmara lenta.

E aí sim, o seu acto de rebeldia estaria consumado!

De acordo com toda a gente, o seu destino seria casar-se com um herdeiro rico - por acaso já sabiamente escolhido pelo pais e pelo irmão – e, depois disso, parir uns quantos pimpolhos bonitos e educados, ter uma casa maravilhosa, dar festas memoráveis, ser uma estrela nas festas de caridade da cidade, depois aturar as bebedeiras do marido, as suas amantes e as viagens com as amantes e, que sabe, um dia mais tarde, até as suas merecidas palmadas de macho frustrado.

E mais nada.

Era assim a vida em 1953.

Mas Katherine não queria esse destino.

Sim, já se tinha sentido injustiçada por não poder escolher, já se tinha sentido culpada por ter tanto quando outras não tinham nada, já se tinha sentido desprezada e humilhada quando Henry, o seu noivo, e por quem se tinha acabado por apaixonar e aceitado o seu inevitável destino, a traíra com a sua melhor amiga, e depois a sua prima, e depois a sua irmã mais nova.

Na festa de noivado de ambos.

Mas tudo isso passara já!

Céus, e fora uma óptima desculpa!

Por isso, decidira.

Tudo isto que a rodeava era vazio para ela.

Não lhe dizia nada.

Nada!

O seu destino era outro, e ninguém mais o deveria escolher, senão ela!

Deixou a porta do escritório aberta, para não esconder nada de ninguém. Henry e Sarah que resolvessem o problema deles depois.

Subiu as escadas e tirou o vestido de noivado escolhido pela mãe e pela irmã mais velha, mas que ela detestara.

Vestiu o vestido preto.

Um vestido escandaloso, parecia, com uma transparência atrevida que lhe mostrava os ombros e o colo. O corpete justo ao seu corpo, acentuando a forma da cintura. Com uma racha levemente divulgadora no lado esquerdo da saia.

Um vestido de diva, não um vestido de virgem.

Ao olhar-se no espelho, imaginou a cara do irmão. E riu-se.

Imaginou se ele teria a mesma coragem, uma vez que ambos partilhavam o mesmo sonho.

Largar as obrigações.

Seguir o trilho da vida.

Pilotar um avião.

Correr o mundo.

Calças sujas de lama e aventuras na bagagem.

Respirar.

Katherine saiu do quarto calmamente.

A trapalhada de Henry já dera frutos, Sarah nunca fora rapariga de ficar calada, e o barulho na sala era caótico.

Por pouco tempo, porém.

Katherine dirigiu-se ao cima das escadas e sentiu as vozes silenciarem-se e os olhares cravados na transparência do seu vestido. Na transparência do seu acto.

Desceu-as calmamente.

Já não tinha medo de nada.

É algo que acontece nos sentidos das pessoas quando as decisões são tomadas e os seus verdadeiros destinos aceites.

Como calculara, James dirigira-se a ela.

Olharam-se bem fundo nos olhos.

Mas, contrariamente à bofetada que esperara, Katherine recebeu um sorriso cúmplice.

James ia com ela.


Para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/

Imagem: Glamorous_by_MelissaKristine

Monday, November 22, 2010

Desafio do mês: Fobias.

Carrocel.


Eu não gosto de feiras.

Não gosto! Nunca gostei!

Quatro irmãos em casa, todos sempre prontos para brincadeiras, explorações, teatrinhos, caças ao tesouro, e de tudo provei; mas continuava sem gostar das feiras, apesar de os ver chegar rosados e ofegantes, cheios de curiosidades e histórias e grandes aventuras na primeira pessoa.

Creio que tenha sido por causa daquele palhaço repentino, colorido e barulhento, surgindo subitamente à minha frente, tinha eu uns três anos, com um balão azul que me rebentou nas mãos e frente ao nariz.

Não me lembro de mais nada dessa idade, mas creio ainda ter pesadelos com essa palhaço, apesar de já se terem passado muitos anos.

Ou terá sido por ter ficado cinco horas preso no carrinho da montanha russa, lá mesmo em cima, e ligeiramente inclinado para a direita. Além da posição dolorosa, perdi as graças da Polly, a rapariga mais gira do liceu que, FINALMENTE!!, havia aceite um convite para sair comigo! Claro que depois disto, nunca mais me dirigiu a palavra…

Também me ocorreu que possa ser algo relacionado com o facto do meu irmão Ernest me ter obrigado a ir com ele no comboio-fantasma e por causa disso termos sido a atracção dessa noite, porque nesse dia tínha sido ao funeral da tia-avó Millie, e ela parecia-se MESMO com uma das figuras lá de dentro, apesar de não podermos ter a certeza porque estava escuro como breu.

Claro que saímos de lá os dois a correr e a gritar feitos lunáticos, com as calças molhadas, e apesar de o meu pai nos tentar acalmar e despegar das pernas, e de o rapaz do comboio-fantasma – que, afinal, não era a tia-avó Millie! – ter vindo ver se estávamos bem, continuei a molhar a cama até uma época humilhantemente posterior a essa aventura.

Ou talvez possa ter sido o cheiro do algodão doce, principalmente depois daquela inesquecível tarde dos meus treze anos, em que decidimos competir para ver quem era mais rápido e comia mais.

O Ernest foi ao tapete ao fim de três nuvens; o Rick ainda se aguentou sete; a Penny era renhida, sempre o foi, a minha irmã mais nova, mais por teimosia do que por convicção. Ou talvez a convicção dela fosse a teimosia.

Claro que quando cai branco e desamparado no chão de cascalho percebemos que algo não estava bem.

Mal sabíamos nós que íamos descobrir que eu sofria de Diabetes, bem mais tarde e uma injecção salvadora depois.

Por isso, quando o Ernest me apareceu à frente com os miúdos e quiseram, precisamente, arrancar o tio Peter de casa para o levar à feira, eu fiquei aborrecido e desconfiado.

É claro!

Alguma coisa má iria acontecer!

E apesar de ter chocado contra a Lisa, de nos termos apaixonado, casado e ganho três rebentos saudáveis e animados, continuo a achar, todos os dias, que o Destino me vai pegar uma partida.

Penso se o facto de termos herdado o carrocel dos cavalinhos terá alguma coisa a ver com isso…





Tuesday, June 22, 2010

Estava vazio…

Há homens que são poças de lama.

O que mostram estende-se em largura, é enorme, denso, brilha sedutoramente ao sol, promete muito.

Mas, na realidade, a sua profundidade resume-se a pouco.

Nada mais do que uma falsa imagem que aparentava grandes coisas.

Outros homens são abismos.

Uma abertura geralmente não muito evidente, um pouco de escuridão e, afinal, muito mais do que isso – uma profundidade na qual não se vê o fim.

O ideal seria um homem-poço.

Uma abertura razoável, não muito extensa, e uma profundidade aceitável, dentro dos limites do suportável para a própria pessoa e para quem a rodeia.

Vincent, obviamente, era um abismo.

Soube-o desde o primeiro momento, apesar de ele se disfarçar de poça de lama.

Todo ele era energia, vida, vivacidade, cor, harmonia.

Um sorriso que abraçava o mundo, um brilho que iluminava em redor.

Mas, por detrás dos seus olhos escuros, escondia um abismo negro que tirava brutalmente o fôlego e o equilíbrio se se olhasse durante demasiado tempo.

Talvez não se conseguisse ver à primeira.

Talvez nem toda a gente o conseguisse perceber, de facto.

É preciso saber olhar, e olhar do plano certo.

De outra forma, não se o consegue entrever.

Para mim não foi difícil.

Eu também não tenho uma personalidade fácil, percebem?

É difícil tê-la quando se é o que sou. Quando se está onde estou.

Não sou um espírito, calma!

Mas também não estou propriamente viva.

Não sei bem o que sou, afinal.

O meu corpo físico, aquilo que se mexe e que se vê, está deitado numa maca de hospital ligado a uma máquina que o faz funcionar.

Mas eu, propriamente, não estou lá. Só às vezes.

Vou visitar-me a mim própria, não soa esquisito?

Bem, isto foi devido a uma daquelas parvoíces por que todos passamos.

“Confias em mim?”

“Claro!”

“Para sempre?”

“Para sempre.”

Mas afinal não é para sempre, e é complicado apercebermo-nos disso quando estamos penduradas nas ameias de um castelo.

Quer dizer, no meu caso tornou-se complicado porque estava lá pendurada e cai para o lado errado.

Logo, o meu corpo físico, mortal, o que lhe queiram chamar, está feito num farrapo e ligado a uma máquinazita que lhe faz bater o coração, os pulmões encherem-se e esvaziarem-se de oxigénio e outros órgãos vitais, basicamente, funcionarem.

No entanto, decidi-ma a ficar a vaguear por aqui.

Por entre as muralhas.

Tem uma bela vista, o castelo.

É consideravelmente sossegado.

E, à noite, inequivocamente pacífico, silencioso e sepulcral.

O sítio ideal para eu deambular!

Foi aqui que descobri Vincent.

Da muralha norte, mais abrigada, e também menos povoada, tenho vista para o parque antigo, agora abandonado e descuidado, e também para as casas menos cobiçadas das ruelas medievais.

Toda a gente quer ficar à vista.

E estas são as que sobram.

Bem, lá estava Vincent.

Uma pequena janela. Um quarto simples.

E dois olhos com um abismo escondido lá dentro.

Não foi difícil aproximar-me, sabem.

Ele já estava à minha procura.

De facto, ele tinha-me descoberto muito antes de eu o descobrir a ele.

Deve ter sido por causa do vestido vermelho.

Ocorreu-me que talvez fosse uma cor demasiado vistosa, por entre a penumbra onde ando e as pedras das muralhas.

Sim, o vermelho destaca-se.

Mas ninguém me devia descobrir.

Eu não existo no mundo real das pessoas, no seu mundo palpável, sóbrio, verdadeiro.

Creio que foi por Vincent vaguear no mundo dos sonhos também, e dos semi-sonhos, daqueles momentos em que não estamos bem acordados ainda, mas também já não estamos a dormir e em que somos parte da névoa.

O despertar acaba com essa sensação.

Era nesses momentos, principalmente, que eu o observava.

Imaginava que ele estava a dormir profundamente, quando ele apenas me vigiava, afinal.

Enquanto ele tecia a sua armadilha para me apanhar.

Não percebi a sua estratégia, mas entrei no jogo.

Afinal, divertia-me a mim também.

Creio que, no início, também ele gostou do jogo.

Eu era o mistério.

Algo que ele não compreendia.

Algo a alcançar.

Tivesse ele sido um pouco mais humano, talvez tivesse tido coragem para comunicar comigo.

Tivesse ele sido um pouco mais humano, não me teria querido nenhum mal.

Mas algo do abismo não o deixava ser humano.

Percebi isso num pôr-do-sol laranja-fogo carregado de nuvens cor-de-chumbo prestes a explodir. Momentos antes de a tempestade desabar pesada e ímpia por entre as pedras ocres das muralhas e a minha fita vermelha que caira há uns passos atrás.

Percebi isso quando me senti encurralada e asfixiada na espiral do nevoeiro em que vivia e não fui capaz de fugir, porque este era arrastado para o abismo sedento de Vincent.

Percebi isso tarde demais.

Finalmente, foi vitorioso.

Conseguiu alcançar o meu coração.

Tivesse ele sido um pouco mais humano, poderia tê-lo conseguido resgatar, talvez, nem eu sei isso.

Mas quando o despedaçou, saiu desiludido, afinal de contas…

Estava vazio…



Imagem: Instinto Aracnido, por Rebeca Saray.

Sunday, February 28, 2010

O RAPAZ ÁGUIA E A RAPARIGA LOBO

A velhice era uma coisa relativa. Disso já ele se tinha apercebido, ao olhar em redor.
Aquilo que, para uns é algo a ser valorizado, algo honroso, para outros não passa de lixo.
Olhava para a imagem que via no rio que passava suavemente.
O Rapaz Águia há muito deixara de ser um rapaz.
Fora jovem. Fora homem. Fora guerreiro. Fora pai. Fora mestre.
E agora era um ancião.
Ele fora um dos guerreiros que, aquando da chegada do Homem Branco, se recusara a converter quando ele disse que quem não o fizesse estaria condenado ao Inferno deles. E o Rapaz Águia não suportaria nunca abandonar os Anciãos da sua tribo num lugar tão horrível como aquele que o Homem Branco descrevia!
Ele via como os membros da tribo do Homem Branco tratavam os seus Anciãos, e era-lhe estranho.
Para eles, o Ancião era um fardo, apenas mais uma boca para alimentar, um corpo para incomodar e dar trabalho.
Não era conhecimento. Não era sabedoria. Não era a voz das histórias do passado longínquo da tribo. Não era o troar da união entre os seus elementos.
Para o Homem Branco, o que tinha mais valor era o dinheiro. Pedaços de papel que podiam comprar a vida de um homem, a sua liberdade, que podiam fazer uma família sair da terra que conhecia há gerações para que aí passassem linhas de metal e depois uma máquina barulhenta que cuspia fumo, que podiam decidir que um homem não pode mais viver, ou pior, ser ele próprio.
E o dinheiro, para ele, não valia nada. Pedaços de papel que, afinal, se derretiam nas águas do rio e desapareciam como se nunca tivessem existido sequer.
Mas nem todos eram assim, e isso também ele o sabia.
Sabia porque toda a vida conhecera a Rapariga Lobo.
A Rapariga Lobo era da tribo do Homem Branco. Porém, o seu coração era igual ao dele. E o espírito dela era igual ao de muitos guerreiros corajosos da sua tribo.
A cor da pele, percebera ele também há muito tempo – e agora tinha a Sabedoria Anciã a comprová-lo – era algo que pouco ou quase nada tinha a ver com o que vai dentro do espírito ou o coração de um homem ou mulher. A não ser que a pessoa se deixasse controlar completamente por isso, claro.

A Rapariga Lobo nascera no mundo do Homem Branco, mas desde sempre o Rapaz Águia a conhecera como a sua irmã, pois a pequena cria havia sido abandonada num casebre em chamas enquanto os seus pais jaziam mortos na pequena horta que era a sua vida, atingidos pelos seus irmãos Brancos em busca de divertimento.
O seu pai recolhera-a, e a sua mãe declarara-a irmã de Lua, Águia, Chuva e Coiote.
Mas isso tinha sido há muito tempo atrás.
A Rapariga Lobo há muito deixara de ser rapariga.
Fora donzela. Fora mulher. Fora guerreira. Fora mãe. Fora mestre.
E agora, tal como ele, era uma anciã.
As vestes eram as mesmas que as suas. Os cabelos, outrora vermelhos e ondulados, diferentes dos seus pretos e lisos, eram agora brancos e ondulados, como os seus eram brancos e lisos. Mas as penas das vitórias eram as mesmas em ambos.
A vida, independentemente da cor da pele ou da diferença do corpo fora a mesma, a coragem idêntica, a ponto de agora, ao olhar para os dois reflexos, não conseguisse distinguir quem era quem.

Só conseguia ver reflectidas na água as duas almas.

Semelhantes.

Idênticas, ao unirem-se à Natureza para sempre.







Imagem: Spirit_of_the_Sky_Dancers_by_Industrial_Ninja

Para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/



Para a Índia!

Sunday, January 17, 2010

Beleza.

Richard era belo.
Disso não havia dúvida.
A pele de uma alvura que brilhava à luz do sol pelo amanhecer, até nos dias escuros.
O apuro dos seus traços era uma exaltação à excelência da masculinidade sem, no entanto, fazê-lo perder qualquer coisa que se poderia caracterizar como essência de humanidade.
Era inspirador para quem passava por ele.
Nada lhe era recusado, nestas condições.
Por ele, toda a gente sentia admiração, inspiração, alento, como que uma centelha mágica, paz, sonho e desejo.
Oh sim, principalmente desejo.
Bem, talvez a sua quase completa nudez explicasse esse facto.
Richard não padecia do sofrimento de ser humano.
Era uma estátua.
Embelezava a praça principal de uma cidade antiga e já ela própria bela.
Mas para o coração de Richard, aquela perfeição material não era Beleza.
Aquilo não passava de um reflexo falso de ideias concebidas pelo Homem, embelezadas pelo Homem, aperfeiçoadas pelo Homem.
De que valia o seu sorriso perfeito se, por vezes, não era sincero, se por vezes não era verdadeiro? Se por vezes preferia que lhe corressem pela face as lágrimas enclausuradas no seu coração também de pedra?
De que valiam os seus membros perfeitos se com eles não podia correr praça fora e sentir o mar, se não podia levantar uma criança ao colo e fazê-la rodopiar no ar, se não podia abraçar alguém com desejo também?
De que valia a perfeição do acto de estar ali no meio da praça e inspirar, se não podia ele próprio sentir, errar, sangrar, sofrer, rir, amar, ganhar e perder?
Se pudesse, ao menos, viver!
Trocaria de bom grado toda a sua perfeição por um sopro de ar nos pulmões!
A sua palidez de mármore por sangue nas veias!
A nobreza de sentimentos que inspirava pela possibilidade de caminhar, de viver, de sentir, de, simplesmente, existir!

A beleza das coisas simples, como um sorriso sincero, uma mão estendida, um olhar verdadeiro.






Para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/

Imagem: Beyond what words can say, by Sebastianude. Deviantart.

Escreva. Mais outro desafio de Janeiro.

COM ESTAS PALAVRAS


“Com estas palavras te conto toda a minha vida, ta entrego com o meu coração.”
“Estás parvo, Timóteo! De certeza que vai dizer que tem noiva e casa posta na terra!”
“Não é nada disso, Catarina! “Com estas palavras te ilumino o dia, como o sol ilumina o mundo pela madrugada no monte!”
“Ainda estás mais parvo, homem! Larga lá isso que já me estás a enervar! A moça tem pretendentes melhores! Este nem abre o bico para lhe dizer uma palavra!”
“Os tímidos surpreendem, já o diz a minha mãe, e ela sabe das coisas.”
“Isso é verdade, a tua mãe é certeira, ó Timóteo.”
“E eu também sou! Dá cá a carta, que a vou ler!”
“Mas és doido? Larga-me da mão, que a Menina deve estar a chegar, e se te apanha com isto na mão, quem ouve sou eu!”
“Deixa só espreitar!”
“Não!!”
“Deixa lá!”
“Que tormento que és! Pronto, leva, mas só para mexer. Não a abras, pelos anjos!”
“Nem uma pontinha?”
“Nada!”
“É fina, afinal… Não deve ter grande coisa.”
“Lá te digo eu: “Menina Maria, é uma preciosidade, mas tenho noiva prometida e um futuro com muitos filhos longe daqui. Ora adeus e muitas felicidades. Assinado, António.”
“Agora quem está parva és tu, Catarina! Não vez a maneira como ele olha para ela?”
“Deixa cá tu agora espreitar a carta!”
“Larga, mulher, não a podes abrir!”
“Deixa só apalpar o peso!”
“Com cuidado!”
Maria entra na cozinha à hora habitual. Os seus olhos vivos captam logo o envelope. Reconhece a letra à distância. É a que ela mais anseia. A que ela mais teme.
Abre-a rapidamente. Para quê ler em voz baixa se percebe os olhares curiosos?
“Querida Maria,
Com estas palavras me prostro a teus pés.
Sem ti, não consigo viver.
Não há sentido em respirar.
O dia em que te conheci fez o meu mundo rodar de pernas para o ar.
Tudo era negro, e o teu olhar devolveu-me a vida como num golpe de magia.
Se devo ter esperança, diz-mo. Estou na fonte.
António.”
Maria corre porta fora para responder.





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ESCREVA. Desafio de Janeiro.

“Vou comprar tabaco.”
Alice, inconscientemente, voltou-se.
Soaram-lhe estranhas as palavras do pai.
O tom com que saíram, ainda que fosse habitual dizê-las.
Olhou-o de longe. Conseguiu ainda vislumbrar os seus olhos castanhos, doces, quando fechava a porta. Brilhavam, com um fulgor que desconhecia.
Percebeu depois que eram lágrimas.
Levantou-se e foi até à cozinha, cautelosamente, quase em silêncio, deixando para trás a boneca que imaginava ser a irmã mais nova que ansiosamente pedia.
“Mãe?”
A mãe estava ocupada a limpar a loiça, virada de costas.
“Diz, amor!” – respondeu com uma voz baixa.
“O pai vai onde?”
“Buscar tabaco, filha, não ouviste? Vamos, está na hora de deitar!”
Largou o pano e o copo que segurava com uma mão trémula e insegura que o fez estilhaçar-se em mil pedaços pelo chão antigo mas impecavelmente lavado.
“O meu pai foi comprar tabaco e depois não voltou mais. Fugiu com a Maria, do café.”, dissera-lhe uma vez o Pedro, seu colega da escola. Deixara a mãe e 3 filhos por criar. Ansiara por aventura, agora que percebia que tinha passado o tempo de se aventurar. O pai do Pedro tinha 45 anos, a Maria, 16.
O pai do Pedro voltara, claro. A Maria depressa se embeiçou por outro adolescente e fugiu com ele, levando um filho na barriga. O pai do Pedro perdera a ânsia de aventura e quisera voltar a casa, mas o seu irmão viúvo já se tinha encarregado de reparar a honra da família e apoiar a mulher e os filhos abandonados, casando com ela.
Alice tremeu.
“Mãe, o pai volta?”, perguntou quase sem voz.
Um som na porta despertou-as.
Era o pai que entrava.
No regaço trazia o que Alice pedira: um bebé.
“É o filho da Maria. É um rapaz. Nós somos os padrinhos e vamos criá-lo.”





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Wednesday, December 02, 2009

Bandeja

ESCREVA - DESAFIO DE DEZEMBRO

Lázaro Covadlo, autor argentino, escreveu o seguinte no seu livro de contos Buracos Negros:

"No dia em que Gómez se fez cortar a cabeça para que fosse oferecida ao nosso Presidente, este tinha-lhe enviado umas horas antes a bandeja."

Continue esta frase e construa o seu próprio conto.

*Modalidade: conto
*Limite: 300 palavras


BANDEJA, by marta


“No dia em que Gomez se fez cortar a cabeça para que fosse oferecida ao nosso Presidente, este tinha-lhe enviado umas horas antes a bandeja.”

Florinda entrou porta adentro a voar, aflita, a soluçar.
Fora tudo um mal-entendido!
Fora tudo culpa dela.
Dela e da sua enorme língua, que nunca conseguia ficar sossegada dentro da boca!
A cabeça que devia ir na bandeja era a sua! Não a do Senhor Doutor. Não a do coelhinho guisado à moda de Doña Iñes, sua mãe, que ela prometera ao Senhor Presidente ainda essa manhã!
Ou por outra, mal sabia ela que, pouco depois da visita do Senhor Presidente à sua cozinha – com os rápidos minutos ofegantes dentro da reduzida e escura despensa das batatas incluídos – e de uma conversa mais breve ainda acerca de diversos tópicos gastronómicos, dos quais sobressaíra a cabeça do dito coelhinho guisado e a destreza da matrona da família de Florinda, a Senhora Doña Iñes, para a sua confecção, e na qual ficara registada a promessa do Senhor Presidente do envio de uma bandeja para o propósito, o Senhor Presidente e o Senhor Doutor se tivessem exaltado de tal forma por causa de uma altercação acerca do jogo da bola dos rapazes que viam da janela, que o Senhor Doutor lhe tenha dito que, já que não partilhava da mesma opinião, preferia mandar cortar a cabeça e enviá-la ao Senhor Presidente, e que este lhe tenha respondido à letra, dizendo “Já que é assim, logo lhe envio a bandeja para o efeito!”
De modos que, quando chegou a dita bandeja às mãos de Florinda, o Senhor Doutor, a acabar de ajeitar a gravata ao sair da dispensa das batatas escura e diminuta, tenha perguntado, estremunhado:
- Ó Florinda, isso que é?
- É a bandeja para a cabeça. Mandou o Senhor Presidente.

- Chama-me o capataz, que eu já venho…

E já não o viu mais.

Na mesma peça inteira, queria ela dizer.






Eu sei, eu sei, é quase Natal, não tem graça nenhuma matar personagens nesta ocasião mas, infelizmente - não que seja propriamente desagradável, claro... - era um dos pressupostos da história.


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